quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Quando minha mãe diz que é gorda

Por Kasey Edwards “Querida mãe, Eu tinha sete anos quando descobri que você era gorda, feia e horrorosa. Até então, eu acreditava que você era linda – em todos os sentidos da palavra. Eu lembro de fuçar os antigos álbuns e ficar um bom tempo olhando para fotos suas no deck de um barco. Seu maiô branco, tomara que caia, parecia glamoroso como o de uma estrela de cinema. Sempre que eu tinha a chance, tirava aquele maiô maravilhoso do fundo do seu armário e ficava imaginando quando é que eu seria grande o suficiente para vesti-lo, quando é que eu seria como você. Mas numa noite, tudo isso mudou. Estávamos todos vestidos para uma festa e você me disse: “Olha para você, tão magra e bonita. E olha para mim, gorda, feia, horrorosa.” De primeira, não entendi o que você quis dizer. “Você não é gorda.” - eu disse, inocente e com sinceridade - ao que você respondeu, “Sim, eu sou, querida. Sempre fui gorda, desde criança.” Nos dias seguintes, eu tive algumas revelações doloridas, que moldaram a minha vida toda. Concluí que: 1. Você deveria ser mesmo gorda, porque mães não mentem. 2. Gordo é sinônimo de feio e horroroso. 3. Quando eu crescesse, seria como você e, portanto, seria gorda, feia e horrorosa também. Passados alguns anos, eu revivi essa conversa e todas as centenas de outras que vieram depois e tive muita raiva de você. Por não se julgar atraente ou digna de atenção. Por ser tão insegura. Porque, como meu grande modelo de mulher, você me ensinou a agir assim também. A cada careta que você fazia em frente ao espelho, a cada nova dieta do momento que iria mudar sua vida, a cada colherada culpada de “ai, eu não devia”, eu aprendia que mulheres deveriam ser magras para serem dignas e socialmente aceitas. Que meninas deveriam passar por privações porque a maior contribuição delas para o mundo era a aparência física. Exatamente como você, eu passei a minha vida inteira me sentindo gorda – (nem sei quando foi que “gorda” se tornou um sentimento). E porque eu acreditava que era gorda, também me achava imprestável. Mas os anos se passaram. Sou mãe. E sei que te culpar por minha péssima relação com meu corpo é inútil e injusto. Hoje entendo que você também é um produto de uma longa linhagem de mulheres que foram ensinadas a se odiar. Olha só para o exemplo que a vovó te deu. Era uma vítima da própria aparência, e fez regime todos os dias da vida dela até morrer, aos 79 anos. Costumava se maquiar para ir ao correio, por medo de alguém vê-la de cara lavada. Eu me lembro do “suporte” que ela te deu quando você anunciou que papai tinha te deixado por outra mulher. O primeiro comentário dela foi, “Eu não entendo porque ele te deixaria. Você se cuida, usa batom. Entendo que você esteja acima do peso, mas não é muito.” Papai também não te acalentava. “Meu Deus, Jan”, uma vez ouvi ele te dizer. “Não é difícil. Calorias consumidas x calorias gastas. Se você quer perder peso, você só tem que comer menos.” Aquela noite, no jantar, eu assisti você implementar essa dica milagrosa de emagrecimento do papai. Você preparou um chow mein para o jantar (se lembra como, nos anos 80, no subúrbio da Austrália, essa combinação de carne moída, repolho e shoyu era considerada o melhor da culinária exótica?). A comida de todo mundo estava em um prato comum, mas a sua estava em um pratinho de sobremesa. Enquanto você sentava em frente a sua patética porção de carne moída, lágrimas silenciosas escorriam pelo seu rosto. Eu não disse nada. Nem quando os seus ombros começaram a curvar por causa do seu incomodo. Ninguém te amparou. Ninguém te disse para deixar de ser ridícula e se servir um prato decente. Ninguém te disse que você já era amada, já era boa o suficiente. Suas conquistas e seu valor – como professora de crianças com necessidades especiais e mãe de três filhos – eram repetidamente reduzidas à insignificância quando comparadas aos centímetros de cintura que você não conseguia perder. Me despedaçou o coração testemunhar seu desespero, e sinto muito por não ter te defendido. Eu já tinha aprendido, àquela altura, que você ser gorda era culpa sua. Eu tinha ouvido papai falar de perder peso como um processo “muito simples” – coisa que, ainda assim, você não conseguia fazer. A lição: você não merecia comer e com certeza não merecia nenhuma compreensão. Mas eu estava errada, mãe. Hoje eu entendo o que é crescer em uma sociedade que diz para as mulheres que a beleza delas é o que mais importa, e, ao mesmo tempo, define padrões estéticos absoluta e eternamente fora de alcance. Eu também entendo a dor que é internalizar essas mensagens. Nós acabamos nos tornando nossos próprios carcereiros e nos impomos punições sempre que não conseguimos chegar lá. Ninguém é mais cruel conosco do que nós mesmas. Mas essa maluquice precisa acabar, mãe. Acaba com você, acaba comigo. Acaba agora. Merecemos mais – mais que ter dias horríveis por pensamentos ligados a nossa péssima forma física, desejando que ela fosse diferente. E não é mais só sobre você e eu. É também sobre a Violet. Sua neta tem apenas 3 anos e eu não quero que esse ódio ao corpo tome conta dela e estrangule sua felicidade, sua confiança, seu potencial. Eu não quero que ela acredite que a aparência é o maior ativo que ela possui, e que vai definir o valor dela no mundo. Quando a Violet nos olha para aprender a ser uma mulher, precisamos ser os melhores modelos que pudermos. Precisamos mostrar para ela, com palavras e com as nossas ações, que as mulheres são boas o suficiente exatamente como são. E para ela acreditar, nós precisamos acreditar primeiro. Quanto mais velhas ficamos, mais pessoas queridas perdemos, doentes ou em acidentes. A perda é sempre trágica, sempre muito precoce. Às vezes eu penso o que essas pessoas não dariam para ter mais tempo num corpo saudável. Um corpo que as permitisse viver um pouco mais. O tamanho das coxas ou os pés de galinha não importariam. Seria vivo, e portanto, seria perfeito. O seu corpo é perfeito. Ele te permite desarmar todo mundo com seu sorriso, contaminar cada um com sua risada. Te dá seus braços para envolver a Violet e apertá-la até ela gargalhar. Cada momento que gastamos nos preocupando com a nossa forma física é um momento jogado fora, um pedaço precioso de vida que a gente não vai recuperar nunca mais. Vamos honrar e respeitar nossos corpos pelo que eles fazem ao invés de desprezá-los pelo que eles são. Vamos manter o foco em viver vidas saudáveis e ativas, deixar nosso peso de lado e largar nosso ódio ao corpo no passado, que é onde ele merece ficar. Quando eu olhava para aquela foto sua de maiô branco anos atrás, meus olhos inocentes de criança enxergavam a verdade. Eu via amor incondicional, beleza e sabedoria. Eu via a minha mãe. Com amor, Kasey.” Nota: Texto original em inglês, escrito por Kasey Edwards e publicado no Daily Life. Traduzimos com a autorização da autora. Agradecemos. * Kasey Edwards passou mais de uma década escalando os degraus corporativos como consultora até acordar uma manhã e descobrir que não queria mais ir ao trabalho. Nunca mais. Mistura humor, irreverência e muita pesquisa para escrever sobre satisfação no trabalho, maternidade, FIV, auto-estima e imagem. Mora em Melbourne com seu marido e a filha, e é autora de quatro best-sellers.

Atividade física é necessária, porém, não é espontânea!

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Alimentando o corpo e a alma

Nutrição é poesia. Fazer nutrição é trabalhar com as sutilezas, as nuances, o não dito. Estas definições estão indo e vindo na minha cabeça há dias. O sentido original da alimentação como ato realizado apenas com o objetivo de nutrir as células nunca foi cumprido! A história mais conhecida sobre uma das primeiras refeições humanas envolve um complicadíssimo enredo de poder, sedução e pecado entre um casal, uma serpente, uma árvore da sabedoria e uma maçã. Este negócio já começou complicado e múltiplo. À revelia disto inúmeros leigos e profissionais insistem em abordar apenas as questões biológicas no tratamento dos distúrbios relacionados com a alimentação. Se o caso é sobrepeso, obesidade, anorexia, bulimia, vigorexia, ortorexia, não importa. Insistem em contar e cortar calorias, em calcular proteínas, carboidratos e lipídeos, em suplementar vitaminas, minerais e oligoelementos e em não enxergar com clareza todas as outras questões que em suas palavras normalmente são chamadas de fatores complementares. Nas abordagens nutricionais predominantes não importa onde o indivíduo nasceu, como foi sua infância, onde vive, com quem vive, como vive, quem ele ama, quem o ama, com o que trabalha, quanto trabalha, para quem trabalha, quando come, onde come, porque come, do que gosta, o que detesta, onde dói, o que alivia. Não importa a sutileza. Só tem valor o que é óbvio, iluminado, escancarado, relatado, quantificado. Enquanto isto os distúrbios permanecem, crescem e tomam formas inusitadas conforme vão sendo parcialmente desvendados. É obesidade? Já transmutou em anorexia. É anorexia? Já se travestiu de vigorexia. E assim o imponderável permanece sem tratamento diante dos diagnosticadores-tratadores-compulsivos. Está ansioso? Triptofano! Desejo por doces? Picolinato de cromo! Fome na hora do crepúsculo? Carboidrato de baixo índice glicêmico! Vazio que nada preenche? Fibra solúvel! Enquanto isto as lojas e farmácias vendem... Enquanto isto as bocas se abrem e comem ausência, desespero, solidão, mãe, pai, família, amor, medo, tristeza, sexo, carência, angústia. Contemporaneidades antigas. Volto então à frase retumbante: Nutrição é como poesia. É nos intervalos das estrofes que o sentido aparece. É na pausa que se pressente o som. É a mistura das cores que constrói a aquarela. É arte que explica e implica o sujeito na sua própria vida.(@viccheib)

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Milagre é a vida

Quando o assunto é peso e saúde a impressão que tenho é que estamos sempre à espera de um milagre. Não queremos fazer atividade física, nem dieta. Não queremos ir ao médico, nem fazer exames, nem tomar remédios. Enfim, não queremos cuidar do nosso corpo, mas, queremos ter saúde. Neste contexto os alimentos denominados light, diet, sem sal, sem colesterol, sem glúten, sem lactose, sem açúcar aparecem como um verdadeiro milagre. Com eles a impressão que temos é que poderemos comer e beber à vontade, poderemos ficar sentados em nossos sofás vendo a vida passar e mesmo assim seremos saudáveis... Será? Eu acredito em milagre, mas não neste! Acredito no milagre do sabor de uma manga, do cheiro de um abacaxi, da cor vibrante de um tomate. Acredito no milagre dos nutrientes construindo, reparando e mantendo as nossas células. Acredito no milagre dos músculos se movimentando para que possamos caminhar e para que o nosso coração possa bater. Não acredito no milagre dos doces sem açúcar, da manteiga sem gordura, do iogurte sem leite, do bolo sem ovos, dos ovos sem colesterol. Não acredito porque estes “alimentos” simplesmente não são capazes de cumprir o que prometem: coma sem culpa, coma e não engorde, coma e não ganhe peso, coma e não eleve o seu colesterol e a sua glicose. Estes alimentos são mais caros, menos saborosos, saciam menos, contêm mais aditivos químicos e, se consumidos à vontade, engordam! Eles são como remédios: possuem efeitos colaterais, se destinam para um público específico de pessoas doentes e devem ser usados sempre mediante prescrição de um nutricionista ou médico. Isto não é milagre! Milagre é o que podemos fazer por nós mesmos diariamente cuidando do nosso corpo como um instrumento sagrado e único que nos foi oferecido gratuitamente. (vicência cheib)

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Deixando a vida mais limpa

Desintoxicar. Está é a última palavra no processo de saúde da atualidade. O que quer dizer isto? De maneira bem simples, desintoxicação é o processo de eliminação daquilo que é tóxico. Nosso dia-a-dia é cheio de comidas, bebidas, medicamentos, pessoas, lugares, sentimentos e atitudes que nos intoxicam, que nos contaminam. Essa contaminação aos poucos vai nos enfraquecendo. Ficamos indispostos, de mau humor, tristes, angustiados, preguiçosos e briguentos. O peso aumenta e o sono diminui. A glicose se eleva e a tolerância abaixa. As dores surgem e o bem estar desaparece. Antes que estes sintomas apareçam é preciso ligar os radares e procurar ao nosso redor as toxinas que estão nos adoecendo. Elas podem estar em todos os lugares: em casa, no trabalho, nas relações, no ambiente, no nosso modo de viver e de ver a vida. A alimentação também pode nos intoxicar sempre que cometemos excessos, sempre que consumimos frituras, álcool, carnes defumadas, alimentos industrializados, refinados ou com agrotóxicos, corantes, conservantes, adoçantes e todas estas substâncias que foram criadas para imitar cheiros, sabores e texturas que só a natureza tem. As toxinas estão tão disseminadas, inseridas e disfarçadas que às vezes não conseguimos identificá-las sozinhos, precisamos da ajuda de médicos, nutricionistas, psicólogos, familiares e amigos. Uma vez encontradas, é hora de combatê-las. Excelentes “remédios” são: alimentos frescos, leves e preparados com amor, água, música, livros, filmes, abraços e beijos, lazer, diversão, fé, compaixão, pensamentos positivos e exercícios físicos, para citar apenas alguns. Há muito mais chances de você encontrar um desintoxicante no sacolão, na horta, no parque, na ioga, na praia do que no supermercado, na lanchonete, na farmácia e no hospital. Os “remédios” sugeridos vão, devagarzinho, limpando o nosso corpo, o nosso espírito, a nossa casa, o nosso ambiente de trabalho e a nossa existência. Eles devem ser usados diariamente e de preferência mais de uma vez ao dia. A fase de manutenção exige muita atenção e cuidado, nela devemos desenvolver a capacidade de perceber e eliminar o que nos intoxica. Assim se faz uma desintoxicação (“detox”). Assim se faz uma vida saudável e feliz. (Vicência Cheib)