sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Amante Contemporâneo
Vicência Cheib
Que os homens sempre tiveram amantes, não é novidade. Ancestralmente parece que os gajos são mais dispostos e corajosos no que diz respeito a variar a parceria.
A coisa funcionava mais ou menos assim, o felizardo tinha a esposa, com quem dividia os filhos registrados em cartório, as missas dominicais, as festas familiares, as doenças, as formaturas, a casa, os bens e de vez em quando, a cama. Não dividia jamais as contas, era o provedor.
Na rua tinha a “Teúda” com quem dividia os filhos não registrados, as queixas da “patroa” e principalmente, com freqüência e desempenho espetaculares, a cama. Com esta também não dividia as contas, era o provedor.
Muitas vezes a esposa sabia da existência da outra, mas, não se importava muito já que o digníssimo não deixava faltar nada em casa e ela ainda se livrava das sessões chatérrimas de acasalamento.
Estas relações duravam até a morte quando todos partiam felizes para o sempre.
Tenho observado, entretanto, um novo tipo de relação se estabelecendo ou já muito bem estabelecido.
Nestas, tudo continua, aparentemente, igual, mas, por trás da aparência semelhante surgem alguns detalhes que fazem toda a diferença.
O fofo que antes era provedor, agora é um duro, no mau sentido claro!
O duro, no bom sentido, está cada vez mais mole.
O masculino simplesmente entrou em crise!
No lugar de trabalhar, ganhar dinheiro, ter sua amante e ser o bom e velho, cada vez mais velho, provedor, ele resolveu malhar, estudar gastronomia, enologia, poesia, ter amantes e não pagar as contas.
Continuam não se separando, mas, não mais porque a esposa é a princesa digna e eterna e sim para não ter uma queda no nível socioeconômico!
Quando questionados sobre a situação, alegam que os filhos, coitados, não podem ficar sem o clube, o colégio particular, as aulas de inglês, balé, judô....
E a amante mudou também! Não é só um furor na cama, é independente, inteligente, bem tratada, bem vestida, tem seu próprio dinheiro que é suficiente, inclusive, para bancar viagens, jantares e presentes para o manso! Entretanto ela continua possuindo uma lacuna que só ele pode preencher: a carência afetiva. Com tantos vinhos, pratos elaborados, poesia e carinho ele pode perfeitamente ser um desprovido de atributos monetários. Afinal, dinheiro ela já tem e sexo, sim, sexo também, quando ele não está estressado com problemas dos filhos ou com uma nova receita francesa que não deu certo.